ZAPPIANDO

Pelo Convidado Fábio Leonardo Brito*

 

Já faz um tempo que venho revendo meus conceitos sobre novelas. Certas novelas, para ser mais exato. Assistido novamente cenas aqui e ali, revendo reprises, conversando com pessoas que entendem, e muito, do assunto (um abraço, queridões!). Isso tem me feito repensar. Me veio, então, a ideia de rememorar uma novela, no mínimo, injustiçada.

A 17 de junho de 2002, a Globo estreava Esperança, a nova novela das 21h, que já começava levantando muitas expectativas. A substituta do blockbustter O Clone vinha com a proposta de trazer de volta um expediente que havia sido sucesso inconteste três anos antes: a imigração italiana, figurada na megaprodução de época Terra Nostra.

O projeto não era novo. Desde o fim de seu trabalho anterior, Benedito Ruy Barbosa deseja dar continuidade à saga que conquistara o país. A ideia original do autor – que terminara Terra Nostra não com um “Fim”, mas com um “Essa história não acaba aqui” – era trazer os personagens, oriundos do fim da última novela, para a época da Segunda Guerra Mundial. No ano anterior ao início do projeto, entretanto, Lauro César Muniz emplacava sua minissérie Aquarela do Brasil, ambientada nos anos 40. Benedito perdia sua ideia, mas não a vontade de falar novamente da imigração no começo do século.

Esperança se passava nos anos 30, quando o crack na Bolsa de Valores de Nova York causava tumulto na economia mundial e levava ao empobrecimento vários países europeus. Com isso, advinham nesses países regimes políticos totalitários, como o fascismo e o nazismo. Esse contexto enquadra o protagonista, Toni (Reynaldo Giannechini), um jovem citadino de Civita, filho do velho pianista decadente Genaro (Raul Cortez), e perdidamente apaixonado por Maria (Priscila Fantin), filha do fascista Giuliano (Antonio Fagundes).

O primeiro capítulo já denotava que essa era uma novela típica de Benedito Ruy Barbosa, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. As tomadas cinematográficas do povoado italiano, as belas cenas de casais apaixonados correndo pelos campos verdejantes… Fora as interpretações de Raul Cortez e Antonio Fagundes, mais uma vez fazendo uma dupla de inimigos.

Configurava-se a trama do amor impossível, que culminava na fuga de Toni, e em sua promessa de retornar quando estivesse estabilizado, no Brasil. Ao chegar aqui, é abrigado por diversas famílias. Primeiro, o negro Matias (Milton Gonçalves). Em seguida, os espanhóis Manolo e Soledad (Otávio Augusto e Denise Del Vecchio), pais de Mercedes (Gisele Itié). E, por fim, os judeus Ezequiel e Tzipora (Gilbert e Eliana Guttmann), pais de Camille (Ana Paula Arósio), o outro vértice do triângulo, com quem Toni casa-se.

Em paralelo, contava-se a história de Francisca “Mão-de-Ferro” (Lúcia Veríssimo), uma fazendeira dura, que mantinha uma rivalidade com os italianos que se instalavam na propriedade vizinha: a família de Vicenzo e Constância (Othon Bastos e Araci Esteves). E, como se trata de uma novela, os filhos de Francisca (Miriam Freeland e Ranieri Gonzáles) tinham de se apaixonar pelos do casal de vizinhos (Emílio Orciollo Netto e Simone Spoladore).

O começo da novela, apesar do sucesso relativo de audiência, foi marcado pelo estranhamento à fala dos estrangeiros, que levava à pouca compreensão do público. Com o tempo, as pessoas se acostumaram e o autor “abrasileirou” o texto. Até então, tudo bem. Mas os grandes problemas ainda estavam por vir. Primeiro, a Copa do Mundo, com apenas um mês do início da trama, chamando todas as atenções para o penta do Brasil. Em seguida, o horário eleitoral gratuito da campanha para Presidente da República, levando a novela entrar mais tarde no ar. Fora isso, a imprensa não parava de taxá-la como um remake mal-acabado do trabalho anterior do autor. E dá-lhe notinhas com a alcunha “Semelhança”.

Em seguida, iniciam-se as urucubacas ao qual elenco, direção e autoria foram submetidos. Na gravação de uma das sequências mais fortes da novela, Ana Paula Arósio e Reynaldo Giannecchini se acidentam, fazendo o galã perder um dente. Em seguida, Benedito é submetido a uma cirurgia de ponte de safena. Meses depois, a mãe do autor é hospitalizada. Resultado da equação: atrasos na entrega dos capítulos, acarretando atrasos nas gravações, e, consequentemente, reclamação do elenco. Beatriz Segall, por exemplo, chamada para uma participação especial como a mãe do português João Manuel (Nuno Lopes), saiu atirando para todos os lados.

Reveja a sequência da discussão entre Toni e Camilli, em que Reynaldo Giannecchini e Ana Paula Arósio acabaram se acidentando:


O saldo foi negativo. Benedito, afastado da novela, foi substituído por Walcyr Carrasco, que mudou seus rumos e arranjou um desafeto com o autor original. Idiotizou alguns personagens, criou outros, e transformou Farina (Paulo Goulart) no grande vilão da história. Benedito, chateado, reclamou, deixou sua insatisfação clara e a Globo não gostou. Nos anos que se seguiriam, o autor seria “rebaixado” para o horário das seis.

Esperança foi, para mim, bem mais que uma mera cópia de Terra Nostra. Foi uma novela que trouxe novos valores e, talvez, uma estética mais elaborada que sua antecessora. Se a ideia foi mal aproveitada, muito se deve a questões externas ao trabalho de texto, elenco e produção. Um de seus traços marcantes, o retrato dos diversos povos que passaram a compor o Brasil no começo do século XX, ficava claro em sua abertura, onde a mesma música era interpretada em português, pelo Fama Coral, em italiano, por Laura Pausini, em espanhol, por Alejandro Sanz, e em hebraico, por Gilbert. Tal característica, bem como um belo retrato histórico do início da industrialização do país, merecem, no mínimo, uma releitura por parte da crítica especializada.

Veja um clipe de lançamento da novela, com a música cantada nos quatro idiomas. E também a abertura, na versão cantada em italiano, por Laura Pausini:


Fotos e Vídeos: Divulgação / Youtube

*Fábio Leonardo é piauíense  formado em História e apaixonado por tal, o que talvez o faça também ser um admirador de telenovelas e interessado pesquisador do gênero. Dedica parte de seu tempo ao seu Blog, o Super Cult. Você pode seguí-lo no twitter.com/fabioleobrito.

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Comentários em: "“ESPERANÇA”: UMA HISTÓRIA QUE MERECEU SER CONTADA" (2)

  1. Tenho comigo que Esperança se perdeu antes mesmo de começarem os problemas que acarretaram em tantas mudanças e a completa descaracterização da trama original. Tão logo Toni deixa a Itália, começa uma barriga que tornou a novela cansativa e maçante. Apesar de tudo, vale ressaltar o ótimo trabalho de Laura Cardoso, vivendo a mãe de Nina (Maria Fernanda Cândido), em uma relevante trama paralela sobre a inclusão das mulheres no mercado de trabalho. Relevante até o momento em que passaram a inserir cenas e mais cenas de protestos em frente a fábricas, sempre em preto-e-branco, o que despertava um sono profundo nos telespectadores.

  2. Engraçado, eu tenho Esperança em mais alta conta que Terra Nostra, por exemplo. Essa sim, eu achei sonífera e tremendamente embarrigada. O grande problema de Esperança, NMO, além do ritmo, foi a insistência do Benedito na relação da Camille (Ana Paula Arósio) com o Toni (Reynaldo Gianechinni), logo depois de nos ter feito torcer pela relação do italiano com a Maria (Priscila Fantin).

    Inclusive, a sinopse original previa, que Toni terminaria com Camille. Não sei ao certo se a volta de Maria foi uma modificação ou se já estava prevista na sinopse, mas o fato é que ela deu uma sacudida no (morno) triângulo amoroso. E Fantin, nem precisou se esforçar tanto para convencer os espectadores, já que o próprio perfil de Camille [sempre a beira de um ataque de nervos], a fazia ser odiada.

    Mas o que realmente me interessava em Esperança eram as tramas paralelas. Gostava da dupla Maria Fernanda Cândido e o português ‘Murruga’; Lúcia Veríssimo e os filhos Míriam Freeland e Ranieri Gonzalez; e a relação de Raul Cortez [sempre ótimo] com o filho. Inclusive, uma das cenas mais bonitas e catárticas da dramaturgia, é a que Genaro morre para salvar o filho. Uma pérola.

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