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ELAS POR ELAS: No reencontro de sete amigas, ressurgem as cicatrizes do passado

Pelo Convidado Guilherme Staush*

A reunião de sete amigas dos tempos de colégio vinte anos depois é o ponto de partida  da trama de “Elas por Elas”, novela escrita por Cassiano Gabus Mendes, e levada ao ar pela Rede Globo em 1982.

 

Márcia (Eva Wilma) é uma viúva alegre e rica, figura indispensável em uma obra do autor. Mãe de três filhos, ela perde o marido, Átila (Mauro Mendonça), logo nos primeiros capítulos, vítima de um ataque cardíaco fulminante quando ele está em um motel em companhia da amante.

As sete amigas protagonistas.

Wanda (Sandra Bréa), após se reencontrar com Márcia, descobre que ela era a esposa de seu amante, e ainda por cima, a viúva contrata o detetive Mário Fofoca (Luiz Gustavo), seu próprio irmão, para desvendar o caso.

Helena (Aracy Balabanian) vive um casamento conturbado com Jayme (Carlos Zara). Mãe de Gil (Lauro Corona), ela não aceita o fato de o filho se envolver com uma menina pobre, Miriam (Tássia Camargo), e que ainda por cima é filha de uma ex-namorada de seu marido.

Adriana (Ester Góes) é a mulher que disputara Jayme com Helena no passado. É veterinária e mora com a filha na própria clínica onde trabalha. É uma mulher simples e solitária. O que nem Helena e nem Adriana sabem é que seus filhos (Gil e Miriam) foram trocados na maternidade por armação do pai de Helena, que desejava ter um neto homem.

Carmen (Maria Helena Dias) é uma dona-de-casa infeliz com seu casamento com Rubão (Ivan Cândido). Ela tem dois filhos e mora também com o cunhado Renê (Reginaldo Faria), por quem nutre uma paixão platônica que só é revelada após a morte trágica do marido.

Marlene (Mila Moreira) tem uma vidinha simples, e mora com os pais, que não descansam enquanto não encontrarem um marido para a filha, que sofre por não conseguir prender um namorado por um longo tempo.

Natália (Joana Fomm) é uma mulher solitária e neurótica, que vive com um fantasma do passado: o irmão, um garoto que tinha o hábito de torturar passarinhos, foi empurrado do alto de uma cachoeira na época de colégio, e ela acredita que uma de suas amigas seja a responsável pelo crime.

 

As três tramas que sustentam a novela acontecem justamente a partir do reencontro dessas 7 amigas,e já nos primeiros capítulos o telespectador já se questionava: Será que o detetive Mário Fofoca vai descobrir que a amante do marido de Márcia é sua própria irmã?  O que vai acontecer quando Helena e Adriana descobrirem que seus filhos foram trocados? Qual das seis amigas de Natália teria assassinado o menino?

Embora pareçam tramas pesadas para um típica novela das 7, o autor conseguiu criar uma história envolvente, com clima de nostalgia, romance e muita diversão.

 

Luiz Gustavo como o detetive Mário Fofoca.

Apesar de a história estar centrada no reencontro das sete amigas, o personagem Mário Fofoca, vivido magistralmente por Luiz Gustavo foi o grande destaque da novela. O ator moldou muito bem os traços do detetive desastrado, que vive sempre metido em confusões nas suas tentativas de elucidar os casos mais pitorescos, juntamente com o parceiro Renê. Ele teria a árdua tarefa de descobrir quem era a “Patinha”, amante secreta do falecido marido de Márcia, alheio ao fato de que a mulher morava sob o mesmo teto que ele, e era ninguém mais ninguém menos do que sua própria irmã.

Para deixar a situação ainda mais divertida, Márcia partiria com unhas e dentes para cima do detetive, na tentativa de conquistá-lo, rendendo cenas divertidíssimas entre os dois atores.

Elas por Elas foi uma excelente novela. Talvez a melhor de Cassiano Gabus Mendes, um autor que sabia bem como prender o telespectador ainda que com tramas bem simples. O grande mérito do autor estava na riqueza de seu texto, na emoção e na diversão de cada capítulo, e no elenco bem selecionado de suas novelas. O maior problema de Elas por Elas, no entanto, está no desfecho das três tramas que sustentaram a novela durante meses. Talvez o final meio apressado tenha prejudicado a história. A maneira como o autor finalizou essas tramas mostram que elas poderiam ter sido terminadas a qualquer momento, sem a necessidade de um novelo a ser desenrolado por meses. O autor, nitidamente, optou por um final fácil, simples, que não comprometesse a trajetória de muitos personagens no desfecho de cada uma das tramas, frustrando o telespectador:

  • Mário Fofoca, que foi o grande destaque da novela, acaba por se tornando um personagem fraco, incompetente em sua busca pela amante do marido de Márcia. O personagem não teve mérito algum em sua descoberta, pois passou meses e meses investigando o caso para que no último capítulo da novela aparecesse uma ex-secretária de Átila que sabia do caso, e lhe contasse toda a verdade. O grande erro do autor, portanto, foi não ter dado ao personagem a chance de ter descoberto o caso por mérito próprio, através de suas próprias investigações. Enquanto personagem, Mário merecia ter tido esse grande mérito, afinal o público inteiro torcia por esse momento, que não aconteceu, tornando o personagem vazio, sem brilho e um idiota completo por não descobrir que a mulher que ele tanto procurava era sua própria irmã e estava, o tempo todo, ao seu lado. Além disso, Mário, em mais um gesto nobre, poupa a irmã por não revelar a Márcia a identidade da “Patinha”, amante secreta de Átila, e assume sua incompetência por jamais poder desvendar o caso, dando à irmã a chance de fazer essa revelação. Ou seja, o detetive não foi competente para descobrir o caso e nem teve coragem de revelar quem era a “Patinha”, preferindo passar por um detetive fracassado e antiético aos olhos de Márcia.
  • Natália, que durante toda a novela infernizou suas amigas na tentativa de descobrir qual delas foi culpada pela morte do irmão, acaba descobrindo, com a ajuda do psicólogo Décio (Marco Nanini), que, sem querer, ela mesma empurrou o irmão do alto de uma pedra, o que acabou criando uma espécie de bloqueio na mente dela. Sem dúvida uma solução bem fácil. Dessa forma, não comprometeu nenhum outro personagem da novela. A imagem das 6 amigas de Natália ficaram imaculadas seja moralmente ou judicialmente.
  • E por fim, a revelação feita por Miguel, pai de Helena, de que o filho dela foi trocado na maternidade, e que, a menina que ela tanto odiou, dada como filha de sua maior inimiga, é, na verdade, sua própria filha. Os dois resolvem manter segredo da história e privam Adriana, Gil e Miriam de saberem a verdade. O que poderia ter rendido momentos de grande emoção na novela simplesmente foi abortado. O telespectador acompanhou o carinho que Adriana sentia “gratuitamente” por Gil durante a novela toda, e certamente seria um momento de grande felicidade para ambos se descobrirem mãe e filho. Foi uma solução bastante cômoda “mexer” somente em um dos lados da história: Helena, ao descobrir que Miriam é sua filha, passa a gostar da menina, e tudo acaba bem. A menina tem passe livre para namorar Gil.

Entretanto, essas tramas mal acabadas não tiram, em absoluto, o brilho da obra. É apenas um  recurso dramatúrgico usado em diversas novelas, que facilita o desfecho de uma trama, sem, contudo, comprometer muitos personagens, ainda que frustrante sob ponto de vista do telespectador, que acompanhou a novela durante 7 meses e que esperava viver toda a emoção que aquelas histórias reservavam.

*Guilherme Staush é editor do Blog Memória da TV, o qual reflete o seu trabalho sobre TV. Guilherme é também professor universitário e reside no Estado do Rio Grande do Sul.

Fotos e Vídeo: Memória da TV

@diniz_paulinho

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